segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
Dostoiévski 004
Dostoiévski. In: Crime e Castigo.
Alcoolismo: uma descrição por Dostoiévski
"Tenho muita experiência, meu senhor, muita experiência! - E, com um gesto amplo e grave, levou um dedo à testa. - Com certeza precisava de ser estudante ou pertencer à classe culta. Mas dê-me licença. - Levantou-se do seu lugar, cambaleou, pegou o prato e o copo e foi sentar-se diante do rapaz, embora um pouco de esguelha. Estava embriagado, mas falava com eloqüência e desembaraço; somente de raro se atrapalhava um pouco e fazia uma grande embrulhada. Dirigia-se a Raskólhnikov com a ânsia de quem já não fala com ninguém há um mês.
- Meu senhor - começou quase com solenidade -, a pobreza não é um pecado, é a verdade. Sei também que a embriaguez não é nenhuma virtude. Mas a miséria, meu senhor, a miséria... essa sim, essa é pecado. Na pobreza ainda se conserva a nobreza dos sentimentos inatos; na miséria não há nem nunca houve nada que os conserve. A um homem na miséria quase que o correm a paulada; afugentam-no a vassouradas da companhia dos seus semelhantes, para que a ofensa seja ainda maior, e é justo, porque na miséria sou eu o primeiro que estou disposto a ofender-me a mim próprio. Acabou-se a bebida! Sim, senhor, há já um mês que o senhor Liebiesiátnikovl bateu na minha mulher; mas eu não sou a minha mulher! Está percebendo? Dê-me licença que lhe pergunte, ainda que seja só a título de curiosidade: já lhe aconteceu passar a noite no Nievá, nas barcas do feno?
- Não, ainda não me aconteceu - respondeu Raskólhnikov. - Que se passa por aí?
- Não, mas eu, há cinco noites...
Encheu o copo, bebeu e ficou pensativo. De fato, tanto na roupa como no cabelo, viam-se-lhe algumas palhinhas de feno. Era muito provável que nem sequer tivesse tirado a roupa do corpo, e que não se tivesse lavado havia já cinco dias. Sobretudo as mãos estavam sujas, gordurentas, avermelhadas, com pintas negras. Segundo parecia, as suas palavras despertaram a atenção geral, embora não muito viva. Os rapazes, atrás do balcão, puseram-se a rir. Parecia também que o dono descera do quarto de cima só com a idéia de escutar o engraçado, e, sentado a alguma distância, escutava com indolência, mas gravemente. Marmieládov era conhecido ali havia já muito tempo. E a sua inclinação para os discursos oratórios devia ter surgido em conseqüência daquele hábito de entabular conversas freqüentes, na taberna, com os desconhecidos. Para alguns bebedores, esse hábito chega a tornar-se uma necessidade, principalmente para aqueles que são maltratados e corridos da própria casa. Por isso, quando estão em companhia de outros bebedores, esforçam-se por justificar-se e, se for possível, por alcançar também alguma consideração.
- Que espirituoso! - exclamou em voz alta o taberneiro.
- Mas por que não vais trabalhar, uma vez que és empregado?
- Por que não trabalho? - repetiu Marmieládov, dirigindo-se exclusivamente a Raskólhnikov, como se fosse ele quem o tivesse interpelado. - Por que não trabalho? Mas não me dói a alma ver a abjeção em que me arrasto? Quando, há um mês, o senhor Liebiesiátnikov bateu na minha mulher com as suas próprias mãos, e eu estava deitado por causa da bebedeira, não sofri talvez? Dê-me licença, rapaz: já lhe aconteceu alguma vez... hum! vamos, pedir dinheiro sem esperança?
- Já me aconteceu, sim; mas como é isso de pedir sem esperança?
- Ora, é pedir sabendo de antemão que não lho darão. Vejamos: o senhor, por exemplo, sabe de antemão e com toda a segurança que um certo homem, um cidadão bondosíssimo e prestável, por nada deste mundo lhe dará dinheiro, pois, por que motivo, pergunto eu, havia de lho dar? Suponhamos também que ele sabe que eu não lho devolvo. Por compaixão? Mas o senhor Liebiesiátnikov, que está a par das novas idéias, explicou-me, não há muito tempo, que a compaixão, nos nossos tempos, é proibida pela ciência, e que é assim que se procede na Inglaterra, onde existe a Economia Política. Por que, pergunto eu, havia de dar dinheiro? Mas acontece que, sabendo previamente que não o dá, apesar disso se põe a caminho e...
- Mas por que vai lá? - acrescentou Raskólhnikov.
- Mas se uma pessoa não o vai procurar, a quem é que há de acudir? É forçoso que todos os homens vão aonde podem ir. Porque estamos numa época em que é preciso ir a alguma parte. Quando a minha única filha foi matricular-se na polícia pela primeira vez, fui eu que a acompanhei - acrescentou, entre parênteses, olhando com certa inquietação para o rapaz. - Não, senhor, não! - apressou-se a acrescentar tranqüilamente, sem reparar que os rapazes do balcão mal podiam conter o riso, e que o próprio taberneiro sorria também. - Não! A mim, abanadelas de cabeça deixam-me na mesma, porque já toda a gente o sabe, e tudo quanto é mistério fica às claras, e é com serenidade e não com desprezo que o confesso. Seja! Ecce honro! Dê-me licença, o senhor poderia...? Mas não; devo exprimir-me de maneira mais categórica e terminante: o senhor não poderia, sim, o senhor não seria capaz, olhando-me bem de frente, de dizer-me que eu não sou um porcalhão?
O rapaz não respondeu nada.
- Bem - prosseguiu o orador com aprumo e até com grande dignidade, esperando outra vez que se extinguissem as risadas -, bem, admitamos que eu seja um porco e ela uma senhora. Eu tenho figura de animal, ao passo que Ekatierina Ivânovna, a minha mulher... é uma pessoa bem-educada, filha dum oficial superior. Admitamos que eu sou um velhaco e ela uma mulher de grande coração e cheia de sentimentos generosos. Mas, no entanto... oh, se ao menos tivesse pena de mim! Meu senhor, meu senhor, todas as pessoas precisam de ter ao menos um lugar onde sintam pena dela! Mas Ekatierina Ivânovna, apesar de ser uma senhora generosa, não é justa... E, embora eu compreenda que, quando ela se excede comigo, o faz por compaixão (porque, repito-o, e não me envergonho, ela se excede comigo), rapaz - reafirmou, com dignidade dobrada, quando acabaram as risadas -, mas, por amor de Deus! Se ela ao menos uma vez... Mas não! Não! Tudo isso são pormenores de que não é preciso falar! Pois já, e não somente uma vez, se cumpriu esse meu desejo, não foi uma vez apenas, que tiveram pena de mim; mas... esse é um aspecto do meu caráter. Eu, por mim, sou uma besta!
- O quê?! - observou o taberneiro bocejando. Marmieládov descarregou um soco pesado sobre a mesa.
- É o que eu sou! O senhor sabe que até as meias dela eu bebi? Não foram os sapatos, o que sempre seria mais lógico, mas as meias. Bebi as suas meias! Também bebi a sua gola de pêlo de cabra, apesar de ser propriedade dela, pois já a tinha antes de casada; e moramos num buraco gelado, e ela, este inverno, apanhou uma bronquite e começou a tossir e a cuspir sangue. Temos três filhos pequenos, e Ekatierina Ivânovna trabalha desde manhã até a noite, lava, esfrega e trata das crianças, pois foi costumada à limpeza desde pequena, simplesmente está doente do peito e tem propensão para a tísica, sei-o muito bem. Mas então eu não tenho sentimentos? E quanto mais bebo mais sinto as coisas. É por isso que bebo, porque na bebida encontro o sofrimento... Bebo porque quero sofrer em dobro! - e inclinou a cabeça para a mesa, em um gesto de desespero. - Rapaz - continuou, tornando a erguer-se -, leio uma certa tristeza na sua cara. Reparei nisso assim que entrou, e foi por isso que lhe dirigi a palavra. Pois ao contar-lhe a história da minha vida eu não pretendia apresentar-me com um aspecto denegrido perante esses tratantes, que, por outro lado, já a conhecem; o que eu queria era encontrar um homem sensível e culto. Fique o senhor sabendo que a minha mulher foi educada num instituto de nobres de um distrito importante, e, quando saiu do pensionato, dançou envolta num xale, na presença do governador e das outras personalidades da localidade, e por isso concederam-lhe uma medalha de ouro e um diploma de louvor. A medalha... bom, a medalha vendemo-la já há tempos... Hum! O diploma laudatório ela ainda o guarda na arca e não há muito tempo que o mostrou à dona da casa. E, embora ande sempre às turras com a tal dona da casa, agrada-lhe no entanto pavonear-se perante os outros, falando dos dias felizes do passado. Coisa que eu não lhe censuro, não, senhor, não lhe censuro, porque esses últimos dias felizes ficaram-lhe gravados na memória e tudo o mais se evaporou. Sim, sim, é uma mulher voluntariosa, orgulhosa e destemida. É ela mesma quem esfrega os soalhos e come pão negro; mas não consente que lhe faltem ao respeito. Por isso não quis suportar as grosserias do senhor Liebiesiátnikov, e quando ele lhe bateu, por causa disso, teve de meter-se na cama, não tanto pelas pancadas, como pela ofensa. Já era viúva quando me casei com ela, e tinha três filhos pequeninos. Casou-se com o primeiro marido, um oficial de infantaria, por amor, e fugiu da casa dos pais. O marido gostava muito dela; mas acabou por endoidecer por causa do jogo de cartas, teve de comparecer perante um conselho de guerra, e morreu por causa disso. Por último também tinha dado em bater-lhe; ela não o tolerava, conforme pude comprovar depois por referências e por documentos; mas ainda hoje o recorda com lágrimas nos olhos, e recrimina-me a mim, comparando-me com ele, e eu fico satisfeito,alegre, porque com essas censuras, de certo modo, ela considera-se feliz... Bem; pois quando ele morreu, a pobrezinha ficou com três criancinhas num distrito afastado e selvagem, onde eu também morava, por esse tempo, e estava numa miséria tão desesperada, que eu, que tenho visto tanta coisa, nem me sinto com forças para descrevê-la. Todos os parentes a tinham desprezado. E no entanto era orgulhosa... E eu, então, meu senhor, eu, então, que também estava viúvo e tinha uma filhinha de catorze anos, da minha primeira mulher, propus-lhe casamento por não poder contemplar semelhante dor. Já pode ver até que ponto chegaria a sua miséria, quando ela, uma mulher culta e educada, e de família distinta, assentiu em casar-se comigo. Mas assentiu! Chorando e gemendo, e torcendo as mãos... mas o certo é que assentiu! Porque não tinha para onde ir. O senhor pode compreender o que significa isso de não ter para onde ir? Não, o senhor não pode compreender... Durante um ano inteiro eu cumpri as minhas obrigações, nobre e honradamente, e não toquei nisto - e bateu com o dedo na garrafa - porque sou um homem de sentimentos. Mas nem assim pude satisfazê-la; fui demitido, não por causa da aguardente, mas por mudança de pessoal, e foi então que me entreguei à bebida... Há já um ano que viemos parar, finalmente, depois de muitos cansaços e de muitas aflições, a esta magnífica capital, ornamentada com tantos monumentos. E aqui encontrei um emprego... Encontrei-o para o tornar a perder. Compreende? Desta vez perdi-o por minha culpa, porque o demônio me tentou... Vivemos agora num canto, em companhia da dona da nossa casa, Amália Fiódorovna Lippewechsel, e como é que nós vivemos e pagamos, não o sei ao certo. Além de nós moram ali também muitas outras pessoas... Aquilo é uma Sodoma caótica... Hum! Sim... E entretanto a minha filha foi crescendo, aquela que tive do primeiro casamento, e tudo o que a minha filhinha teve de suportar da madrasta, durante todo esse tempo, é coisa em que não quero tocar. Pois, ainda que Ekatierina Ivânovna seja uma mulher de sentimentos generosos, é pessoa orgulhosa e irritável, e que perde a paciência com facilidade... Lá isso é! Bem, mas não falemos nisso! Educação, já o senhor pode imaginar que não recebeu nenhuma. Há quatro anos experimentei ensinar-lhe geografia e história universal; mas, como eu próprio não estava muito forte nisso e não tinha tido bons professores, e, além disso, com aqueles livros... Hum! Bem, agora já não há desses livros; e a educação dela ficou por aí. Ficamos em Ciro, rei dos persas. Depois, quando era já uma mulherzinha, leu alguns livros de índole romanesca, e há pouco, por intermédio do senhor Liebiesiátnikov, leu com muito interesse um livro de fisiologia, de Lewis... conhece-o? E até nos leu passos dele em voz alta; foi essa toda a sua instrução. Agora, meu senhor, vou fazer-lhe uma pergunta de caráter particular. Acha que uma moça pobre, mas honesta, pode ganhar a vida trabalhando? Se for honesta e não possuir aptidões especiais, nem quinze copeques por dia chegará a ganhar, e isso trabalhando sem parar. Mas o Conselheiro de Estado Klopstock (Ivan Ivânovitch, o senhor está a ouvir-me?) até hoje ainda não lhe pagou pela confecção de meia dúzia de camisas de Holanda, e ainda por cima a expulsão de sua casa a pontapés, insultando-a de uma maneira vergonhosa, com o pretexto de que o colarinho duma das camisas não estava na medida e de que a tinha talhado o viés. E, entretanto, as crianças passando fome... E Ekatierina Ivânovna torcia as mãos e dava voltas pela casa, e trazia já umas rosetas encarnadas nas faces: isso é próprio da doença e acontece-lhe constantemente. "Estás lendo? Apre, que comes e bebes conosco, parasita, e não fazes nada!" Mas que podia ela comer e beber, quando havia três dias que as crianças não viam uma côdea de pão! Eu, nessa ocasião, estava deitado; bem, queria lá saber! Estava curtindo a bebedeira, e então ouvi falar da minha Sônia - ela não é respondona, e tem uma vozinha tão fraca... é bonita, com uma carinha sempre pálida, fraquinha, e diz: "Mas, o quê, Ekatierina Ivânovna, é possível que me mande fazer isso?" E, entretanto, Dária Frántsovna, mulher maldosa e bem conhecida da polícia, já por três vezes lhe tinha pregado, por recomendação da dona da casa. " Que tem isso de especial?", respondeu Ekatierina Ivânovna com uma risadinha. "Para que te reservas? Olhem a prenda!" Mas não lhe deite culpas, não a culpo, meu caro senhor; não a culpo. Se estivesse em seu perfeito juízo não teria dito aquilo, foi levada por sentimentos exaltados, por causa da doença e pelos choros dos filhos esfomeados; lá isso foi; disse-o mais para ofender do que por pensá-lo verdadeiramente... Porque Ekatierina Ivânovna tem um tal gênio que, assim que os filhos começam a chorar, ainda que seja de fome, bate-lhes logo. E eu bem vi como Sônietchka se levantou, deviam ser sete horas, pôs uma touquinha, o casaco, saiu do quarto e só voltou às nove. Voltou a essa hora, foi ter com Ekatierina Ivânovna e deitou sobre a mesa, na frente dela, trinta rublos de prata. Não disse sequer uma palavra, pegou o nosso grande xale verde, que tem um desenho do jogo das damas (porque temos um xale com esses desenhos, que serve para todos), tapou completamente a cabeça e a cara com ele, estendeu-se na cama de cara voltada para a parede e só os seus ombros estremeciam com arrepios que lhe sacudiam todo o corpo... E eu continuava deitado, tal como antes, muito sossegado... Foi então, rapaz, que vi como Ekatierina Ivânovna, sem dizer uma palavra, se aproximou da caminha de Sônia e passou a noite toda de joelhos a seus pés, e beijava-lhe os pezinhos e não queria levantar-se, e depois dormiram as duas juntas, abraçadas, as duas... as duas... assim mesmo; e eu... continuava curtindo a bebedeira.
Marmieládov calou-se, como se lhe tivesse faltado a voz. Depois encheu o copo com rapidez, bebeu e limpou a boca.
- Então, meu senhor - continuou, depois de uma pausa -, então, devido à delação de pessoas mal-intencionadas (e para isso contribuiu principalmente Dária Frántsovna, com o pretexto de que lhe tínhamos faltado ao respeito), então é que a minha filha Sônia Siemiônovna se viu obrigada a matricular-se e, por essa razão, já não pôde continuar vivendo conosco. Porque a senhoria, Amália Fiódorovna, não quis tolerar isso (apesar de, antes, se ter servido de Dária Frántsovna), e o senhor Liebiesiátnikov também. Hum! Repare: foi por causa de Sônia aquela história que ele teve com Ekatierina Ivânovna. A princípio era ele quem assediava Sônietchka e, então, de repente, encheu-se de melindres. "Como, eu, um homem tão distinto, viver na companhia desta gente?" Mas Ekatierina Ivânovna não soube proceder: quis manter-se na sua... bom... e atazanou-se... Agora Sônietchka só vem ver-nos quando é já escuro, distrai Ekatierina Ivânovna e traz-lhe bastante dinheiro... Mora em casa do alfaiate Kapernaúmov, ao qual alugou um quarto. Kapernaúmov é coxo e gago, e toda a sua numerosa família é também gaga. E a mulher é também gaga... Vivem todos juntos no mesmo quarto; mas Sônia tem um só para ela, separado por um tabique... Hum! Lá isso é verdade... São pessoas muito pobres e todas gagas... sim... Pois bem, na manhã seguinte, assim que me levantei, vesti os meus farrapos, ergui os braços ao céu e dirigi-me para a casa de Sua Excelência, Ivan Afanássievitch. Conhece Sua Excelência, Ivan Afanássievitch? Não? Pois não conhece uma pessoa de bem! É como cera virgem, cera virgem, perante Deus; e essa cera funde-se... Até se desfaz em lágrimas, depois de se ter dignado a ouvir tudo. "Bem", disse ele, "Marmieládov, já uma vez me causaste uma decepção... Mas tornarei a admitir-te sob minha responsabilidade pessoal”, foi assim mesmo que ele disse. "Lembra-te disto, por amor de Deus, e vai-te embora!" Beijei os seus pés, em pensamento, pois na realidade não mo teria consentido, porque é funcionário de categoria elevada e homem de idéias novas no que respeita às coisas oficiais e à educação: voltei para casa e, quando anunciei que ia ser reintegrado no serviço e receber outra vez ordenado, que rebuliço!
Marmieládov tornou a ficar muito comovido. Neste momento entrou um bando de homens, embriagados, e à porta ouviu-se o som dum realejo ambulante, de aluguel, e a vozinha infantil, guinchona, dum rapazinho de sete anos, que cantava A granja. Estabeleceu-se um rebuliço. O taberneiro e os rapazes receberam os recém-chegados. Sem lhes dar atenção, Marmieládov continuou a sua narrativa. Parecia já completamente embriagado; mas, quanto mais bêbado estava, mais tagarela se tornava. As recordações de seu recente triunfo no serviço pareciam reanimá-lo e fizeram até afluir-lhe um certo brilho ao rosto. Raskólhnikov escutava-o com atenção.
- Isto aconteceu haverá umas cinco semanas. Sim... Quando as duas o souberam, Ekatierina Ivânovna e Sônietchka, parecia que lhes tinham aberto o reino de Deus. Dantes era só aquilo de "Está ali caído, como uma besta!" Só insultos. Agora andavam nas pontas dos pés e ralhavam com os petizes: "Siemion Zakháritch chega cansado do trabalho, está descansando. Chiu!" Davam-me café antes de ir para a repartição e aqueciam-me a nata para o pão. Arranjavam nata verdadeira, está ouvindo? E onde teriam elas ido descobrir aquele uniforme decente, que valia onze rublos e cinqüenta copeques? Não consigo compreendê-lo! Até botas, gravatas de plastão, de algodão fino, esplêndidas, uniforme: tudo por onze rublos e cinqüenta copeques e em ótimo estado! Levanto-me no primeiro dia de manhã, para ir para a repartição, e que vejo? Ekatierina Ivânovna tinha-me preparado dois pratos para o desjejum: sopa e carne com rábanos... coisa que, até hoje, ainda não consegui explicar. Vestidos, não tinha nenhum, nenhum mesmo, e, no entanto, parecia que estava para receber visitas: estava muito bem-posta, e como se sempre tivesse vestido do bom e do melhor; bem penteada, com uma gola primorosa, mangas compridas, parecia absolutamente outra, e estava rejuvenescida e mais bonita. Foi Sônietchka, a minha querida, quem arranjou o dinheiro. E ela própria me disse: "É melhor eu não vir vê-lo de dia, é preferível vir depois, quando já for escuro, para que ninguém me veja". Está ouvindo, está ouvindo? Eu, depois do almoço, fui dormir, coisa que, em outras circunstâncias, Ekatierina Ivânovna não consentiria, como deve calcular. Havia apenas uma semana que tivera uma zanga terrível com a senhoria, Amália Fiódorovna, mas depois convidou-a para tomar uma xícara de café. Estiveram duas horas juntas conversando em voz baixa: "Sabe? Agora,Siemion Zakháritch está outra vez empregado, ganha um ordenado, e fala com Sua Excelência em pessoa, e Sua Excelência recebe-o e manda os outros esperarem, e vai de braço dado com Siemion Zakháritch à frente de toda a gente, até o seu gabinete!" Está ouvindo, está ouvindo? "Eu, não há dúvida", disse, "Siemion Zakháritch, que me lembro dos seus serviços, e embora sofra dessa triste fraqueza, como o senhor agora me promete emendar-se, e, além disso, como aqui, sem o senhor, as coisas não andam bem (ouça, ouça!), agora", disse, "confio na sua palavra de honra." Mas eu digo-lhe a verdade: isso tudo foi ela quem inventou, mas não o fez por falta de juízo, nem somente por gabolice. Não, ela própria acredita nisso tudo e consola-se com a sua imaginação... Meu Deus! E eu não a censuro; não, não a critico! Quando, há seis dias, recebi o meu primeiro ordenado (vinte e três rublos e quarenta copeques), e lho entreguei todo, chamou-me pequenino, "Meu pequenino!" Estávamos os dois sozinhos, compreende? Pois foi assim, como se eu fosse um rapaz jeitoso e um bom maridinho. Bem, depois ela me deu uma palmadinha na bochecha, dizendo-me: "Meu pequenino!"
Marmieládov parou, por momentos, e parecia que ia sorrir; mas, de repente, o queixo começou a tremer-lhe. No entanto dominou-se. Aquele ambiente de taberna, aquele quadro repugnante, cinco noites passadas nas barcas do feno e a garrafa de permeio em tudo isso, aquele amor doentio pela mulher e pela família deixavam admirado o seu ouvinte. Raskólhnikov escutava, era todo ouvidos, mas com uma sensação de mal-estar. Estava arrependido de ter-se ido meter ali.
- Meu senhor, meu senhor! - exclamou Marmieládov endireitando-se. - Oh, meu senhor! Ao senhor, talvez isso o faça rir, como aos outros, e eu não faço outra coisa senão importuná-lo com a estupidez de todos estes miseráveis pormenores da minha vida doméstica; mas, a mim, não me dão vontade de rir. Porque eu sou capaz de sentir tudo isso... E, durante todo aquele dia paradisíaco da minha existência, e durante toda aquela noite, eu mesmo me entreguei a grandes devaneios; quero dizer que tudo aquilo se ia arranjar, que as crianças teriam roupa, e a ela proporcionar-lhe-ia tranqüilidade, e tiraria a minha única filha da desonra e ela retornaria ao seio da família... E muitas outras coisas, muitas outras coisas! Dê-me licença, senhor... Pois bem, meu senhor... - de súbito, Marmieládov estremeceu, ergueu a cabeça e ficou olhando fixamente para o seu interlocutor. - Pois no dia seguinte, depois de todas essas ilusões (ou seja, precisamente há cinco dias), à noite, eu, com uma artimanha, como um salteador noturno, tirei a chave da cômoda a Ekatierina Ivânovna, apoderei-me do que restava ainda do meu ordenado... não me lembro bem quanto; mas veja isto, veja bem: levei tudo! Cinco dias fora de casa, eles à minha procura, a carreira perdida, e o uniforme em poder dum taberneiro da ponte do Egito, que, em vez dele, me deixou estes farrapos... e acabou-se!
Marmieládov deu a si mesmo um soco na testa, rangeu os dentes, fechou os olhos e fincou com força o cotovelo sobre a mesa. Mas, passado um minuto, transfigurou-se e, com certa malícia forçada e um autodomínio fingido, olhou para Raskólhnikov, sorriu e continuou falando:
- E hoje estive em casa de Sônia e fui pedir-lhe dinheiro para beber. Ah, ah, ah!
- E ela lho deu? - perguntou alguém dos que entravam, e depois desatou a rir às gargalhadas.
- Olhe, esta meia garrafa foi paga com o dinheiro dela - disse Marmieládov encarando Raskólhnikov. - Deu-me trinta copeques, os últimos, tudo quanto tinha, que eu bem vi... Não me disse nada; limitou-se a olhar-me em silêncio... De uma maneira como não se olha na Terra, mas além, no lugar onde têm piedade das pessoas, choram e não insultam. Apesar de que ainda custa mais quando não nos insultam! Trinta copeques, isso mesmo; e a ela, decerto, devem fazer-lhe falta. Não acha, meu caro senhor? Porque veja que ela, agora, tem de andar muito bem-arranjada. E essa apresentação custa dinheiro, está percebendo? Compreende? É que ela tem de usar brilhantina; e saias engomadas, botinas elegantes, justinhas, para fazer sobressair o pezinho quando é preciso atravessar uma poça no meio da rua. Compreende o senhor, compreende o que significa esse esmero? Pois bem, eu, como vê, gastei esses trinta copeques na bebida. E continuo bebendo! E já estou bêbado! Mas bem, quem é que se preocupa com um tipo como eu? Diga! O senhor tem pena de mim ou não? Diga lá, senhor, tem pena ou não? Ah, ah, ah!
Quis encher de novo o copo; mas já não havia nem uma gota; e meia garrafa estava vazia.
Ouviram-se risadas e também insultos. Riam e injuriavam, os que tinham ouvido e os que não ouviram, só de olhar a cara do funcionário demitido.
- Ter pena! Por que haviam de ter pena? - exclamou, de repente, Marmieládov, levantando-se de mão estendida, tomado de uma enérgica exaltação, como se estivesse apenas à espera daquelas palavras. – Mas por que hão de ter pena de mim? Digam! É assim mesmo. Não há motivo. O que me devem fazer é cravarem-me numa cruz e não terem pena de mim! Mas crucifiquem-me depois de me julgarem e, quando me tiverem crucificado, tenham pena de mim. E então eu próprio irei ter com vocês para sofrer o suplício, pois não é de alegria que eu tenho sede, mas de tristeza e de lágrimas! Imaginas tu, taberneiro, que esta meia garrafa me trouxe a felicidade? Sofrimento, o sofrimento é que eu procurava no seu fundo; tristeza e lágrimas, e encontrei-as realmente; quanto à piedade, há de ter piedade de nós Aquele que de todos se apiedou e tudo compreendeu: Ele, que é o amigo e também é o juiz. Nesse dia Ele há de aparecer e perguntará: "Onde está essa pobre moça que se vendeu por uma madrasta má e tísica e por umas crianças, que lhe não são nada? Onde está essa pobre moça que teve compaixão do pai, bêbado inveterado, sem se assustar com o seu embrutecimento?" E depois dirá: "Anda, vem cá! Eu já te perdoei uma vez. Já te perdoei uma vez. Perdoados te sejam também agora os teus muitos pecados, porque amaste muito". E perdoará à minha Sônia; há de perdoar-lhe, eu sei que há de perdoar-lhe... Foi isso o que senti há pouco no meu coração, quando fui vê-la... E há de julgar a todos e a todos perdoará, tanto aos bons como aos maus, aos prudentes e aos pacíficos... E, depois de julgar todos, inclinar-se-á também para nós: "Vinde cá", dirá, "vós outros, também, vós, os bêbados, vinde cá, impudicos; vinde cá, porcalhões!" E nós aproximar-nos-emos, sem nos envergonharmos, e deter-nos-emos. E Ele dirá: "Meus filhos! Imagem bestial é a vossa e tendes a sua marca; mas aproximai-vos também". E intervêm os castos, e intervêm os prudentes: "Senhor! Mas vais admitir estes também?" E Ele dirá: "Pois eu os admito, ó castos! Aqui os acolho, ó prudentes! Porque nem um só deles se julgou nunca digno de tal mercê..." E estender-nos-á as suas mãos, e nós outros entregar-nos-emos nelas e romperemos em pranto e compreenderemos tudo... Então, havemos de compreender tudo! E todos hão de compreender... E Ekatierina Ivânovna também compreenderá... Senhor, venha a nós o vosso reino..."
Dostoiévsk. In: Crime e Castigo.
Dostoiévski 003
não há muito tempo, que a compaixão, nos nossos tempos, é proibida pela ciência, e
que é assim que se procede na Inglaterra, onde existe a Economia Política."
Dostoiévski. In: Crime e Castigo.
Dostoiévski 002
Dostoiévski. In: Crime e Castigo.
Dostoiévski 001
Dostoiévski. In: Crime e Castigo.
domingo, 3 de janeiro de 2010
Texto antiiigo: Algumas considerações pessoais sobre o Racialismo do Dr. Watson
Texto originalmente postado em 26 de junho de 2008 no blog Bandoleros UNESP
Primeiro vou passar pra vocês uma regra prática que uso quando vejo alguém falando a respeito da Teoria da Evolução, doravante chamada Biologia Evolutiva, uma nomenclatura um pouco melhor que engloba as teorias criadas durante o séc.XX:
1 – toda vez que vocês virem um leigo falar de Biologia Evolutiva, dêem 1 passo pra trás por cautela;
2 – toda vez que for um jornalista, dêem 2 passos para trás;
3 – que for um médico, três passos;
4 – um físico, 4 passos;
5 – um biólogo de outra área que não a Biologia Evolutiva, 5 passos.
Isso porque a Biologia Evolutiva é uma ciência contra-intuitiva, ou seja, que vai contra o senso comum e o bom senso que são base para a nossa racionalidade-resolvedora-de-problemas diária. É como afirmar que a Terra gira em torno do Sol: se você falar isso pra um índio de uma tribo perdida no meio da floresta amazônica sem explicar passo a passo como isso é possível e provar por a+b usando uma linguagem e exemplos que façam sentido pra ele, ele vai te chamar de imbecil com toda a razão, pois a idéia intuitiva é a de que o Sol gira em torno da Terra.
Isso que eu fiz foi uma maneira discreta de utilizar uma falácia ad hominem para dizer que, apesar de entender bem a Biologia Evolutiva em certos pontos, Watson está usando uma Biologia Evolutiva à moda da casa, uma vez que essa não é a área dele e ele não entende todas as nuances epistemológicas desse pensamento.
Bom, vamos então analisar as afirmações de Watson sob o ponto de vista da Biologia Evolutiva:
“Não há uma razão firme para prever que a capacidade intelectual de povos geograficamente separados em sua evolução deva mostrar-se identicamente evoluída.”
Essa afirmação foi baseada em uma possibilidade verdadeira, mas há vários problemas na mesma:
1 – Confundir o conceito de “inteligência” com o conceito de “capacidade intelectual”, que o senhor Watson está utilizando à moda da casa, segundo seus preconceitos.
Expressar inteligência como “capacidade intelectual” é incorrer em inúmeros erros.
Primeiro, ignorar que não existe consenso entre neurocientistas e psicólogos sobre a questão.
Segundo, ignorar que existem diferentes tipos de inteligência, como inteligência corporal, inteligência espacial, criatividade, habilidade lógico-matemática, habilidade lógico-abstrata, habilidade de comunicação oral e escrita (estou inventando alguns desses conceitos, já que não conheço muitos, só pra dar uma idéia do que deve ser levado em conta na questão), muitas das quais ainda não podem ser quantificadas como o termo “capacidade” sugere.
Aliás, o próprio termo “capacidade” no seu sentido conotativo sugere mais e melhor, o que é um juízo de valor humano que não encontra embasamento na Biologia Evolutiva, que é dependente da variabilidade e, portanto, está livre desse idealismo platônico.
“Capacidade intelectual” poderia ser entendida como a habilidade de um indivíduo tirar conclusões acertadas a respeito do mundo à sua volta (se bem que esse conceito deve ter outro nome, e bem mais apropriado). Essa habilidade poderia realmente ser útil em alguns ambientes (nem todos, seria inútil, por exemplo, num ambiente com alimento farto, sem predadores e sem machos ou fêmeas concorrentes: ou seja, no jardim do éden), e não há motivo para supor que os diferentes povos precisaram menos dessa habilidade, apesar de poder-se discutir se as mesmas soluções foram encontradas em ambientes diversos. Mas concluir daí que uma solução ou outra foi melhor ou pior é pretensão e juízo de valor de cientista preconceituoso.
2 – Presumir que uma hipótese que pode ser levantada de maneira indutiva a partir da Biologia Evolutiva (a de que populações separadas geograficamente evoluíram sob pressões ambientais distintas e nelas, portanto, foram selecionadas estratégias comportamentais diferentes para resolver os problemas apresentados pelo meio, ou seja, inteligências e maneiras de perceber o mundo diferentes) é verdadeira quando não existem estudos que a tenham testado de maneira hipotético-dedutiva.
Primeiro é preciso lembrar que definir e medir capacidade intelectual não é da alçada da Biologia Evolutiva.
Porém, uma vez que as neurociências e a psicologia cheguem a algum tipo de consenso quanto à definição de inteligência (ou não, utilizando-se de vários critérios diferentes, o que seria até mesmo mais sensato), um estudo desse tipo realmente poderia ser feito e essa hipótese poderia ser testada com as populações atuais.
Porém, esse estudo hipotético-dedutivo também não é do âmbito da Biologia Evolutiva, e sim das mesmas neurociências e psicologia.
E, até que o estudo seja feito, não se pode concluir que a hipótese é verdadeira. Watson está confundindo o conceito de “Plausibilidade Biológica”, ou seja, uma explicação plausível dentro do corpo teórico de uma teoria biológica para um fenômeno qualquer, que pode gerar uma hipótese com mais chance de ser verdadeira do que a hipótese gerada por outra forma aleatória, com uma verdade científica já testada por estudos. E mesmo uma verdade científica não é absoluta, já que a ciência abdicou da verdade quando abraçou a dúvida como ferramenta metodológica.
3 – Confundir média e moda e sua importância nas características de uma população, além de ignorar a importância da variabilidade.
Isso é um erro comum. Quando ele fala da capacidade intelectual de um povo como um todo, ele está falando da média da inteligência dessa população ou da moda da inteligência?
Por que se estiver falando da média, vamos inventar uns índices absurdos pra dar idéia dos erros que podem acontecer, lá pode ter simplesmente 10% da população de gênios, mas um elevado índice de paralisia cerebral, uns 30%, vamos supor, o que jogaria a média lá embaixo.
Se ele estiver falando de moda, ou seja, do valor mais comum encontrado numa população, pode até ser mais representativo. Se numa população a moda de um tipo de inteligência é maior do que noutra... porém, será que entre populações diferentes todos os tipos de inteligências testados vão apresentar a moda mais elevada na mesma população? E será que um estudo desse iria levar em consideração os saberes locais? E o nível de escolaridade? Watson esquece que, como dizia o Osorinho, só dá pra comparar ovo com ovo de pata, não dá pra comparar ovo com rapadura.
Mas de qualquer jeito, moda e média não dizem nada sobre um indivíduo em si. Isso por que são aproximações estatísticas que simplesmente precisam ignorar uma realidade sobre a qual a Biologia Evolutiva lançou seus alicerces desde o princípio: em uma população, não existem 2 indivíduos iguais. Eles podem ser parecidos, mas nunca são iguais, e aí entra a imprevisibilidade do mundo, que um cientista muito engessado vai sentir muita dificuldade em compreender, mas que pra vocês da história e serviço social é mais fácil perceber. E, porra, como isso faz do mundo um lugar bonito pra se viver!
“Nossa vontade de encarar faculdades racionais iguais como um patrimônio universal da humanidade não bastará para fazer com que seja assim.”
É verdade, mas a vontade de que uma hipótese plausível seja verdadeira também não bastará sem um experimento adequado e sem muita reprodutibilidade. E olha o pulo que ele deu: de “capacidade intelectual”, já virou “faculdades racionais”. Além de reduzir inteligência a um único aspecto, ainda presume que, em algum ambiente, racionalidade científica foi selecionada e noutro não. Na verdade, se alguma coisa foi selecionada ao longo do tempo, foi a nossa capacidade de produzir senso comum, e, logo, cultura. Ciência e racionalidade nesse sentido são tão recentes que afirmar que passaram por seleção direta é risível. Ele também esquece que a inteligência é uma faculdade tão rara na natureza que é praticamente impossível que tenha surgido mais de uma vez, então, se nós a temos em qualquer grau que seja, devemos a uma origem comum. A seleção poderia alterar algumas de suas características, mas não sabemos se isso de fato ocorreu.
“inerentemente pessimista sobre as perspectivas da África”
Se o Popper fala que a Biologia Evolutiva não é uma ciência porque não consegue fazer previsões sobre a evolução das espécies, como é que esse jumento está fazendo uma previsão sobre a África usando Biologia Evolutiva? E ainda uma previsão geopolítica?!?! Desde quando isso é nosso objeto de estudo?!?! Se isso não é pseudo-ciência, eu não sei o que é...
“Todas as nossas políticas sociais estão baseadas no fato de que a inteligência deles é a mesma que a nossa – enquanto todos os testes dizem que não é realmente assim”.
Primeiro, vamos só deixar marcada a pretensão de “nossas políticas sociais”, como se os americanos estivessem tentando resolver o problema da África, como se isso fosse da alçada deles, e como se os problemas sociais dos africanos não pudessem ser resolvidos pelos mesmos sem interferência externa se eles parassem de dar tiro uns nos outros e plantar comida ao invés de minas terrestres (um momento de reducionismo só pra dar uma respirada e eu lembrar que não dá pra pensar todos os pontos a respeito de uma questão sozinho).
Porém, concordo em parte, apesar de saber que ele não disse no sentido que eu concordo e não saber se essas pesquisas realmente existem e são confiáveis. Não sei se estudos sobre as diferenças de tipos de inteligência entre as etnias seriam úteis para as ciências sociais, mas quando fazia licenciatura a gente discutia que poderiam ser úteis estudos sobre como diferentes etnias preferem aprender as coisas, se isso não auxiliaria a desenvolver melhores metodologias de aprendizagem.
Para culminar: “As pessoas que têm de lidar com empregados negros descobrem que isso não é verdade”.
Desde quando os negros são sempre empregados dos brancos? E dizer "têm de lidar", parece que ele está falando de macacos e não de seres humanos, se bem que como Thomas Huxley eu preferiria ser parente, amigo e companheiro de um macaco do que de alguém que usasse uma frase dessas como argumento científico. E desde quando experiência pessoal é conhecimento científico? Ela pode até ser usado pra elaborar uma hipótese, mas até ela ser testada... E, de qualquer jeito, o preconceito da frase é tão evidente que nem é necessário discutir se ela tem ou não alguma base científica, é óbvio que isso é coisa da cabeça dele. Afinal, o Bruno é preto, mas tem uma alma branca, é até inteligente e bastante generoso e fácil de lidar. [Nota para algum desavisado que visite o blog: o Bruno é um amigo nosso e, portanto, a frase acima foi uma ironia a respeito do preconceito velado existente na sociedade brasileira e uma oportunidade ímpar de dar uma sacaneada com ele, se não gostou vá procurar outro blog]
Mas o professor de Harvard define Watson pelo que ele de fato é: um racialista. O geneticista o demonstra à farta na entrevista, falando de possíveis “genes da inteligência judia” e da “dominância no basquete” dos negros.
Bom, o problema aqui é que quem está sendo dogmático agora é o professor de Harvard, quando estabelece a priori que o racialismo seria um preconceito e que não pode ser testado no mundo natural. Na verdade, como já foi dito, é até plausível a hipótese do racialismo, porém ela ainda carece de experimentos científicos consistentes.
Posso até ousar levantar algumas questões a respeito. Por exemplo, a diferença da cultura afro-descendente no Brasil para a cultura Eurocêntrica. É interessante notar que os europeus prezam muito a visão na sua cultura: por exemplo, os rituais religiosos exigiam aqueles templos enormes, nosso modo de estudo depende do microscópio e do telescópio. Já os africanos gostam muito mais de cheiro, sabor (acho que é o Lévi-Strauss que fala que os portugueses foram às índias buscar “uma ardência na língua”, aliviar a falta de sabor que a cultura européia tinha) e expressão corporal – vide as religiões africanas, a capoeira. Não têem nada da assepsia e da inércia européias. Só hipóteses, que sempre necessitam de experimentos. Mas será que essa é uma questão estrita das ciências humanas como a história, a antropologia e a etnografia? Não discuto que o papel preponderante nesse caldo seja de fatores culturais. Porém, acho que se o biológico não limita a o edifício da cultura, ele é a base sobre a qual ele foi erigido, e, portanto, em algum lugar do passado, presente ou futuro pode influenciar nesses rumos, mas não determiná-los. O problema é que algumas mulas costumam interpretar a biologia não como um fator de propensão, mas como um fator limitante. Mas, quem pode dizer com segurança os limites de um ser humano? A ciência não é tão pretensiosa, alguns cientistas e alguns biólogos é que são.
“Ele acredita que certas características ou formas de comportamento observáveis entre grupos de seres humanos podem, de fato, ter uma base biológica no código que os cientistas podem se tornar capazes, eventualmente, de estabelecer, e que o ‘gene’ é algum espaço mítico neutro, e aquilo que alegadamente ‘mede’ ou ‘determina’ independe de fatores, variáveis e influências ambientais.”
Sempre concordando que não existe neutralidade em ciência, só um imbecil não reconhece isso. Ciência é sempre ideológica, mas diferentes ideologias podem trazer benefícios e malefícios diferentes para a sociedade, por isso viva a diversidade e o anarquismo teorético e metodológico do Feyerabend. O problema do Watson é dar importância demais aos genes. Primeiro ele esquece que gene fica escondido lá dentro da célula, e portanto não encontra com o ambiente e não é alvo de seleção. Seleção age sobre fenótipo. Só algumas mulas geneticistas e biólogos moleculares não percebem isso, eles e o Richard Dawkins, outro imbecil que acha que o objeto de estudo da Biologia Evolutiva é a religião e que, portanto, é objetivo dela provar que Deus não existe. Tirando isso, há outros fatores de herança que precisam ser levados em consideração. Por exemplo, o próprio desenvolvimento humano, que é influenciado pelo organismo da mãe. Outro o DNA mitocondrial. Outro é o caso de vírus que se integram no material genético, 10% do nosso DNA é feito de vírus, e como isso influi na evolução é uma pergunta muito importante hoje. Fora isso, existem outras questões, outras formas de herança que têm sido discutidas hoje e que ainda não aprendi, mas que vão além dos genes.
Gates se diz constrangido com a história dos genes do basquete, mas não perde a elegância. Lembra para Watson o que o pai lhe dizia quando via as quadras cheias de jovens negros: “Se estudássemos cálculo como estudamos basquete, estaríamos dirigindo o MIT”.
Aqui um caso clássico de aderência do oprimido ao opressor: por que diabos o MIT é mais importante que o basquete? Gates precisa rever urgentemente os próprios preconceitos se quer auxiliar a derrubar os preconceitos da sociedade onde vive.
Watson tem que se lembrar que conhecimento científico não é sinônimo de melhores condições de vida para a população em geral, porque a academia geralmente se preocupa mais em saber as coisas do que em colocar comida na barriga dos outros.
Antes de concluir, é preciso lembrar que um homem não é feito só de razão, ou só de inteligência, ou só de cognição. Ele também tem sentimentos, vontades, sensibilidades, religiosidade, espiritualidade, moral, ética e tantas outras coisas sobre as quais nem a Biologia Evolutiva, nem as neurociências, nem nenhuma outra ciência pode se pronunciar, mas sem os quais nós simplesmente seríamos incompletos.
Pra concluir, experimentos científicos não são a nossa única fonte de resposta pros problemas da vida diária, então vamos nos aproveitar do nosso senso comum e do nosso bom senso pra pensar um pouco essa questão. Facilidade de aprendizagem é um negócio bem distribuído, tem gente que tem mais tem gente que tem menos, mas a esmagadora maioria dá pro gasto. Oportunidade de estudar é um negócio mal distribuído, pouca gente tem. E, entre quem tem oportunidade de estudar, vontade de usar a inteligência e estudar é que é um negócio raro. Todos nós quando nos reunimos adoramos exercitar nossa soberba e nossa língua ferina pra dar umas boas gargalhadas e falar do “povo burro” com o qual convivemos (eu vou contar umas histórias nessas férias que vcs vão morrer de rir, Gabriel). Mas a verdade é que ser “elite intelectual” envolve também opção, e tem pessoas que simplesmente deram prioridade a outras maneiras de serem felizes.
sábado, 2 de janeiro de 2010
Tabacaria
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a Morte a pôr umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa,
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordámos e ele é opaco,
Levantámo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.
Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica.
(O dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria sorriu.
